Nós de marinheiro: por que são indispensáveis a bordo

Os nós de marinheiro fazem parte dos conhecimentos fundamentais de qualquer navegador. Mesmo quem ainda tenha pouca experiência noutras áreas da marinharia poderá constituir uma ajuda muito válida a bordo se souber executar, com rapidez e segurança, alguns dos nós que a Náutica Martins da Cruz considera essenciais.

Saber fazer um nó não significa apenas conseguir reproduzir uma determinada sequência de voltas com um cabo. É necessário reconhecer a situação, escolher o nó apropriado e executá-lo corretamente, sem hesitações, mesmo quando é preciso agir com rapidez. Quem possui esta capacidade já dispõe de uma competência prática importante.

Naturalmente, saber fazer nós não basta para transformar alguém num marinheiro completo. Contudo, o contrário representa uma lacuna considerável: uma pessoa pode possuir conhecimentos em diferentes áreas da marinharia, mas, se não souber fazer nós, verá muito limitada a sua utilidade em muitas das tarefas mais comuns a bordo.

Por isso, os nós de marinheiro devem ser entendidos como uma das bases da formação de qualquer navegador.

Read in English (generated by IA)

Um bom nó de marinheiro deve manter-se seguro enquanto trabalha e, ao mesmo tempo, deve poder ser desatado facilmente quando deixa de ser necessário.

A importância de escolher o nó de marinheiro adequado

Perante uma necessidade imediata, quase qualquer pessoa conseguirá improvisar um nó. Poderá unir dois cabos, prender um cabo a determinado ponto ou formar uma alça no chicote de um deles. Na Náutica, chamamos frequentemente mãozinha a essa alça intencionalmente formada num cabo para ser utilizada numa determinada manobra.

A dificuldade não está apenas em conseguir executar o nó. Está em prever como ele se comportará depois de sujeito a esforço.

Um nó improvisado pode parecer eficaz enquanto está a ser executado e até suportar inicialmente a carga. Porém, depois de ficar muito socado — isto é, fortemente apertado pela tensão exercida sobre o cabo — poderá tornar-se extremamente difícil ou mesmo impossível de desatar.

Nestes casos, pode ser necessário recorrer a uma espicha, instrumento existente em muitos canivetes de marinheiro e utilizado, entre outras funções, para ajudar a abrir e desfazer nós muito apertados. Ainda assim, a única solução por vezes implicará a necessidade de cortar o cabo, o que obviamente não será o desejável.

Espicha de marinheiro integrada num canivete náutico, utilizada em trabalhos de marinharia
Espicha — instrumento utilizado em diversos trabalhos de marinharia e que pode ajudar a abrir nós muito apertados.

É precisamente aqui que se revela uma das grandes vantagens dos nós de marinheiro: foram desenvolvidos para cumprir funções específicas e para apresentar um comportamento tão previsível quanto possível.

Um bom nó deve suportar os esforços para os quais foi escolhido sem correr, desfazer-se ou apertar de forma descontrolada. Além disso, deverá, sempre que as condições o permitam, poder ser desatado depois de terminado o esforço, preservando o cabo para voltar a ser utilizado.

Isto não significa que qualquer nó de marinheiro possa ser usado em qualquer situação, mas sim que será sempre possível desfazê-lo mesmo depois de submetido a cargas extremas. Cada nó tem uma função, vantagens e limitações próprias.

A escolha errada pode comprometer a manobra, danificar o cabo ou criar uma situação perigosa.

A bordo não existem “cordas”, apenas cabos

Antes de aprendermos os nós de marinheiro, devemos começar pelo elemento com que os executamos.

Na linguagem náutica, o termo genérico utilizado é cabo, e não “corda”. Depois de colocado ao serviço, um cabo pode adquirir uma designação relacionada com a função que desempenha: adriça, escota, espia, retenida, entre muitas outras.

Existe uma conhecida expressão da tradição marinheira segundo a qual, a bordo, corda só a do sino, a do relógio ou “acorda que está na hora de começar a trabalhar”. Independentemente da versão utilizada, a ideia é simples: chamar “corda” a um cabo revela imediatamente pouca familiaridade com a linguagem de bordo.

Pequeno glossário de marinharia

Ao longo deste artigo utilizamos alguns termos próprios da marinharia:

Cabo — elemento de fibra natural ou sintética utilizado nas diferentes manobras de bordo.

Chicote — extremidade de um cabo.

Seio — parte intermédia do cabo, situada entre os chicotes.

Coca — torção indesejada que se forma num cabo devido ao excesso de torção.

Cocha — torção helicoidal dos cordões que constituem um cabo.

Cordão — cada um dos elementos torcidos que formam o cabo.

Mãozinha — alça intencionalmente formada num cabo para ser utilizada numa determinada manobra.

Socado ou socada — diz-se de um nó ou de uma volta que ficou fortemente apertado em consequência do esforço exercido sobre o cabo.

Espicha — instrumento pontiagudo utilizado em diversos trabalhos de marinharia, incluindo a abertura de nós muito apertados.

Cunho — peça existente nas embarcações e em muitos cais ou marinas, destinada a receber os cabos de amarração.

Cabeço — peça robusta, geralmente vertical, existente no convés ou no cais e utilizada para dar volta aos cabos de amarração.

Vergueiro — cabo de aço que passa pelos balaustres e que, juntamente com estes, define a balaustrada da embarcação.

Moitão — peça náutica equivalente a uma roldana, utilizada para orientar a passagem de um cabo ou para integrar um sistema destinado a proporcionar vantagem mecânica.

Cunho, cabeço e moitão: para que servem a bordo

O cunho apresenta duas extremidades laterais, em torno das quais o cabo é disposto, normalmente através de voltas em oito. Nas embarcações de recreio, é uma das peças habitualmente utilizadas para dar volta aos cabos de amarração.

O cabeço é uma peça geralmente vertical e muito robusta, utilizada sobretudo nos cais para a amarração de navios de grandes dimensões. Em náutica de recreio, não é habitual a sua utilização.

Cunho de amarração numa embarcação
Cunho — peça com duas extremidades laterais destinada a receber o cabo.
Cabeço de amarração utilizado para dar volta aos cabos
Cabeço — peça geralmente vertical e robusta utilizada na amarração.

O moitão tem uma função diferente. No seu interior encontra-se uma ou mais rodas com um gorne por onde passa o cabo. Essas rodas são as roldanas do moitão. Além de orientar a passagem do cabo, a associação de vários moitões pode reduzir o esforço necessário para movimentar uma carga.

Sistema de moitões utilizado para suspender o motor do veleiro Formidável
Sistema de moitões adaptado a bordo do FORMIDÁVEL para suspender o motor.

A fotografia mostra uma utilização muito concreta dos moitões a bordo do FORMIDÁVEL. Durante uma viagem a Espanha, detetámos que um dos apoios do motor se tinha partido, tornando necessário suspendê-lo para podermos intervir. Para isso, adaptámos um aparelho de força, recorrendo a vários moitões para desmultiplicar e reduzir os esforços e obter a vantagem mecânica necessária para elevar uma carga desta dimensão.

É um bom exemplo de como conhecimentos de marinharia e a correta utilização dos meios disponíveis a bordo podem permitir encontrar uma solução para um problema inesperado. Num futuro próximo, iremos descrever com mais detalhe a situação que aconteceu a bordo do FORMIDÁVEL e como foi resolvida recorrendo apenas a meios e conhecimentos próprios.

Diâmetro e bitola de um cabo

Também é importante compreender como se indica a dimensão de um cabo.

O diâmetro corresponde à distância entre dois pontos opostos da sua secção transversal, passando pelo centro. Por sua vez, na terminologia náutica tradicional, a bitola pode corresponder ao perímetro ou à circunferência do cabo.

Como indicação simples, a circunferência de um cabo corresponde aproximadamente a três vezes o seu diâmetro. Assim, um cabo com 8 milímetros de diâmetro terá uma circunferência aproximada de 25 milímetros.

Atualmente, porém, fabricantes e casas de artigos náuticos identificam quase sempre os cabos pelo seu diâmetro nominal. Na linguagem corrente, também se tornou habitual empregar a palavra “bitola” para designar essa medida.

Consequentemente, quando alguém pede um “cabo de 8 milímetros”, estará quase certamente a referir-se a um cabo com 8 milímetros de diâmetro, e não de circunferência.

Ainda assim, sobretudo perante documentação antiga ou terminologia menos clara, convém confirmar expressamente qual das duas medidas está a ser utilizada.

Escolher um cabo não é escolher apenas uma medida

A bitola é apenas um dos elementos a considerar. A escolha de um cabo deve atender, entre outros aspetos, a:

  • material e tipo de construção;
  • carga de rotura;
  • carga máxima de trabalho recomendada;
  • resistência à abrasão;
  • resistência aos raios ultravioleta;
  • facilidade de manuseamento;
  • alongamento e elasticidade;
  • finalidade a que se destina.

A elasticidade assume particular importância nos cabos de amarração. Uma embarcação atracada está permanentemente sujeita aos movimentos provocados pelo vento, pela ondulação, pela passagem de outras embarcações e pelas variações de maré.

Os cabos devem conseguir absorver parte desses movimentos sem transmitir todos os impulsos de forma brusca a cunhos, cabeços e restantes pontos de amarração.

Quando apresentam elasticidade insuficiente, podem utilizar-se amortecedores de borracha ou molas próprias para amarração. Contudo, esses acessórios não substituem uma seleção correta. O primeiro passo deverá ser sempre escolher cabos adequados à embarcação, ao local e às condições previsíveis.

No FORMIDÁVEL, um veleiro de cruzeiro de 10 metros, com cerca de 7,5 toneladas e preparado para navegação oceânica, a escolha criteriosa dos cabos de amarração permitiu enfrentar condições meteorológicas adversas sem necessidade de recorrer a esses acessórios.

Mais importante do que acrescentar equipamentos é compreender o comportamento dos cabos e preparar corretamente a amarração.

Como colher um cabo e evitar a formação de cocas

Um cabo não deve ser arrumado de qualquer maneira. Antes de o colher, devemos esticá-lo e deixá-lo correr, tanto quanto possível, para retirar as cocas e libertar as torções acumuladas.

As cocas são torções indesejadas que levam o cabo a dobrar-se sobre si próprio e a formar voltas que dificultam a manobra. Um cabo com cocas pode ficar preso num moitão, num olhal ou noutro ponto de passagem, deixando de correr livremente precisamente quando precisamos dele.

Por isso, existe uma diferença importante entre colher um cabo como um marinheiro e enrolá-lo da forma muitas vezes utilizada por um camionista, entre a mão e o cotovelo. Este segundo método introduz sucessivas torções no cabo. Quando volta a ser utilizado, essas torções transformam-se facilmente em cocas.

Colher o cabo à mão

Para colher corretamente um cabo, seguram-se as voltas já formadas com uma mão e utiliza-se a outra para formar cada nova volta. Em cada volta, dá-se ao cabo uma ligeira torção, no sentido necessário para compensar a torção criada pelo próprio movimento de o colher.

As voltas devem ficar regulares e com uma dimensão adequada à bitola e à flexibilidade do cabo. No final, o cabo deverá poder voltar a correr sem formar cocas.

Colher o cabo em aduchas

Também podemos colher um cabo em aduchas, formando voltas alongadas e sucessivas, como representado na imagem. Os seios devem ser dispostos de forma ordenada e com dimensões semelhantes. Esta forma de colher o cabo é particularmente útil, por exemplo, para arrumar uma amarra de modo a que possa correr livremente quando necessário, sem ficar presa.

À medida que o cabo é colhido, é igualmente necessário acompanhar a sua tendência natural e evitar introduzir torções. Os seios devem ficar ordenados, sem cruzamentos desnecessários e prontos a permitir que o cabo volte a correr.

Independentemente da forma escolhida para colher o cabo, o objetivo é sempre o mesmo: conservá-lo arrumado e assegurar que poderá ser utilizado sem ficar preso nem criar dificuldades durante a manobra.

Colher um cabo à mão formando voltas regulares e evitando cocas
Colher o cabo à mão — cada volta é acompanhada por uma ligeira torção que evita a formação de cocas.
Cabo colhido em aduchas
Cabo colhido em aduchas.

Os seis nós de marinheiro que consideramos essenciais

Existem centenas de nós, voltas e trabalhos de marinharia. Na verdade, não é necessário começar por aprender dezenas deles.

Na Náutica Martins da Cruz, consideramos preferível que um navegador domine verdadeiramente um conjunto mais limitado de nós, compreendendo:

  • para que servem;
  • como se executam;
  • como se comportam sob esforço;
  • quais são as suas limitações;
  • em que situações não devem ser utilizados.

Se tivéssemos de selecionar seis nós e voltas fundamentais para quem começa a navegar, escolheríamos:

Lais de Guia · Nó direito · Nó de escota · Volta de fiel · Volta de cunho · Nó de oito

Estes não resolvem todas as situações que podem surgir a bordo. No entanto, constituem uma excelente base e permitem responder a muitas necessidades correntes.

1. Lais de Guia — o nó fundamental a bordo

Execução do Lais de Guia passo a passo com cabo náutico
Lais de Guia — nó que permite formar uma mãozinha.

Ver a execução passo a passo do Lais de Guia.

Se tivéssemos de escolher apenas um nó para um navegador dominar verdadeiramente, escolheríamos o Lais de Guia.

Não apenas porque é um dos grandes clássicos da arte de marinheiro, mas porque a sua versatilidade permite resolver uma enorme variedade de situações a bordo.

O Lais de Guia permite formar uma mãozinha no chicote de um cabo. Essa mãozinha mantém a sua dimensão quando o cabo fica sob tensão: não corre nem vai apertando progressivamente sobre o que se encontra no seu interior.

Quando corretamente executado e utilizado numa situação apropriada, é um nó seguro e que, em condições normais, continua a poder ser desatado depois de ter trabalhado sob carga.

É precisamente esta combinação — mãozinha que não corre, segurança sob esforço, versatilidade e facilidade em desfazer — que explica a importância do Lais de Guia na arte de marinheiro.

Onde podemos utilizar o Lais de Guia?

Uma das suas utilizações mais evidentes encontra-se nos cabos de amarração. O Lais de Guia permite formar uma mãozinha no chicote, que poderá ser passada por um cunho, cabeço ou outro ponto apropriado.

Também pode ser utilizado para:

  • prender um cabo a uma argola ou olhal;
  • criar uma mãozinha que possa ser passada por determinado ponto;
  • amarrar a boias;
  • realizar diferentes trabalhos relacionados com os cabos e o aparelho da embarcação.

A verdadeira utilidade do Lais de Guia não está numa única manobra. Está em permitir ao navegador criar, com rapidez, uma mãozinha que mantém a sua dimensão quando o cabo entra em esforço.

Este nó pode tornar-se verdadeiramente importante em determinadas manobras de salvamento, nomeadamente numa situação de homem ao mar.

Se houver um nó que vale a pena saber fazer quase sem pensar, é o Lais de Guia.

2. Nó direito — simples, útil e frequentemente mal executado

Nó direito corretamente executado com dois cabos de cores diferentes
Nó direito corretamente executado.
Nó torto executado incorretamente com dois cabos de cores diferentes
Nó torto — resultado de executar incorretamente o nó direito.

Ver a execução passo a passo do nó direito.

O nó direito é formado pela união de dois chicotes e é frequentemente apresentado como uma solução para unir cabos de bitolas semelhantes.

Porém, essa explicação exige prudência. O facto de dois cabos apresentarem a mesma bitola não significa, por si só, que o nó direito seja adequado à utilização pretendida.

Na sua aplicação, o nó direito pode ser útil para unir temporariamente dois chicotes em trabalhos ligeiros e para apertar ou envolver elementos quando existe tensão em ambos os chicotes de cada lado do nó. A sua designação inglesa, reef knot, recorda a sua utilização tradicional na manobra de rizar.

O nó torto

Embora pareça simples, o nó direito é frequentemente mal executado. Quando as duas meias-voltas são dadas no mesmo sentido, forma-se aquilo a que chamamos um nó torto.

Por isso, saber executar um nó direito inclui também saber reconhecer imediatamente quando ficou mal executado.

Quando não deve ser utilizado?

Apesar da sua simplicidade, o nó direito apresenta limitações importantes. Em particular, não é um nó em que devamos confiar quando a tensão sobre os cabos pode desaparecer ou variar significativamente, pois, ao ficar folgado, pode deformar-se e acabar por se desfazer.

Por isso, o nó direito:

  • não deve ser utilizado quando os cabos possam ficar sem tensão;
  • não é apropriado para esforços alternados ou quando os cabos ficam repetidamente sob tensão e depois folgam;
  • não é um nó de reboque;
  • não deve ser utilizado para suportar cargas elevadas;
  • não constitui uma solução universal para unir dois cabos.

É um nó simples e muito útil nas situações adequadas, mas saber executá-lo implica também compreender as suas limitações e reconhecer quando não deve ser utilizado.

3. Nó de escota — unir cabos de bitolas diferentes

Nó de escota executado com dois cabos de cores e bitolas diferentes
Nó de escota — solução clássica para unir cabos de bitolas diferentes.

Ver a execução passo a passo do nó de escota.

Quando é necessário unir dois cabos de bitolas diferentes, o nó de escota é uma das soluções clássicas da marinharia.

Na sua execução, o seio é formado no cabo de maior bitola e o cabo de menor bitola passa em torno desse seio. Quando a diferença entre as bitolas é mais significativa, pode recorrer-se ao nó de escota dobrado, acrescentando uma segunda volta.

Tal como acontece com os restantes nós, não basta verificar a bitola. Também é necessário considerar:

  • os materiais dos cabos;
  • a respetiva cocha;
  • o estado de conservação;
  • a carga prevista;
  • a possibilidade de ocorrerem variações de tensão;
  • as consequências de uma falha.

O nó de escota é uma solução útil para unir cabos de bitolas diferentes, mas não deve ser transformado numa resposta automática para qualquer união.

4. Volta de fiel — rápida e muito utilizada a bordo

Volta de fiel utilizada para prender o cabo de uma defensa
Volta de fiel — volta rápida que pode ser utilizada para prender o cabo de uma defensa.

Ver a execução passo a passo da volta de fiel.

A volta de fiel é uma das voltas mais conhecidas e utilizadas a bordo. É rápida de executar e pode ser utilizada quando pretendemos prender um cabo a um balaústre, vergueiro, tubo ou outro suporte apropriado.

Uma das suas utilizações mais comuns é na colocação das defensas. A volta de fiel permite prender o cabo da defensa e ajustar a altura a que esta fica colocada.

Também pode ser utilizada noutras tarefas de bordo, desde que se compreenda a forma como trabalha.

5. Volta de cunho — fundamental na atracação

Volta de cunho com cabo disposto corretamente em voltas em oito
Volta de cunho — o cabo entra no cunho e é disposto em voltas em oito.

Ver a execução passo a passo da volta de cunho.

A volta de cunho é uma das voltas que quase todos os navegadores terão inevitavelmente de utilizar quando chegam a um cais.

Durante a atracação, os cabos de amarração têm de ser passados e devem ser executadas voltas de forma rápida e correta. Os cunhos existentes nas embarcações e em muitos cais ou marinas destinam-se precisamente a receber esses cabos.

Este procedimento é, por isso, uma das formas mais comuns de dar volta a um cabo de amarração durante a atracação e a permanência no cais.

A execução deve respeitar a forma como o cabo entra no cunho e a direção do esforço. Depois de o cabo trabalhar corretamente sobre a base do cunho, dão-se as voltas em oito necessárias.

A última volta deve ser mordida, ficando o chicote preso sob a própria volta. No entanto, importa evitar a acumulação desnecessária de voltas, o que dificultaria a libertação do cabo quando é preciso largar rapidamente.

Chegar ao cais é uma das situações em que a utilidade de uma volta deixa imediatamente de ser teórica.

6. Nó de oito — impedir que o cabo corra

Nó de oito executado no chicote de um cabo náutico
Nó de oito — executado junto ao chicote para impedir que o cabo corra por um ponto de passagem.

Ver a execução passo a passo do nó de oito.

O nó de oito desempenha uma função diferente dos anteriores. É executado junto do chicote para impedir que o cabo corra completamente através de um olhal, de um moitão — peça náutica equivalente a uma roldana — ou de outro ponto de passagem.

É um nó prático, rápido de executar e particularmente útil nas extremidades de escotas, adriças e outros cabos que não queremos que corram inadvertidamente.

Porém, também neste caso é necessário avaliar as dimensões do nó em relação ao ponto de passagem. Um nó de oito demasiado pequeno poderá não cumprir a sua função se conseguir atravessar o olhal ou o moitão.

Que nó considerar em cada situação?

Pretendo... Nó ou volta a considerar Ideia principal
Criar uma mãozinha no chicoteLais de GuiaA mãozinha mantém a sua dimensão sob esforço
Unir temporariamente chicotes de igual bitolaNó direitoDeve ser corretamente executado e não suporta utilizações críticas
Unir cabos de bitolas diferentesNó de escotaO seio é formado no cabo de maior bitola
Prender rapidamente um cabo a um suporteVolta de fielÉ rápida de executar e fácil de ajustar ou desfazer
Amarrar a embarcação a um cunho Volta de cunho Permite dar volta ao cabo de forma rápida, segura e fácil de largar
Impedir que o chicote corra por um ponto de passagemNó de oitoFunciona como nó de retenção

Esta tabela é necessariamente uma simplificação. A escolha deve considerar sempre o material, a construção e o estado do cabo, a sua bitola, a carga, a direção do esforço, o ponto utilizado e as consequências de uma eventual falha.

Da Arte de Marinheiro à formação atual

Quadros de nós de marinheiro na sala de formação da Náutica Martins da Cruz
Quadros de nós executados pelo Comandante Martins da Cruz na sala de formação da Náutica Martins da Cruz.

A arte de marinheiro está também fisicamente presente na sala de formação da Náutica Martins da Cruz. Entre os elementos existentes nas paredes encontram-se vários quadros de nós executados pelo Comandante Martins da Cruz.

Na sua elaboração foi utilizada, entre outras referências, a obra Arte de Marinheiro, do Capitão-de-Mar-e-Guerra José Fernandes Martins e Silva, publicada pelas Edições Culturais da Marinha.

Esta ligação é particularmente importante para nós: conhecimento tradicional, experiência de mar e transmissão desse conhecimento a novas gerações de navegadores.

Entretanto, os meios de aprendizagem evoluíram. Hoje podemos juntar a esse conhecimento fotografias, esquemas, vídeos e animações que mostram detalhadamente a sequência de execução de cada nó.

Pretendemos preservar aquilo que a experiência ensinou e, simultaneamente, aproveitar aquilo que a tecnologia tornou mais fácil aprender.

Como aprender e treinar nós de marinheiro

Aprender um nó exige, sobretudo, repetição. É necessário fazê-lo, desfazê-lo e voltar a fazê-lo até que a sequência dos movimentos se torne natural.

Gata Gati a brincar com os cabos utilizados para treino de nós na Náutica Martins da Cruz
Atualmente, os kits de navegação entregues aos formandos incluem dois cabos para treino dos nós — embora nem sempre sejam apenas os formandos a interessarem-se por eles.

Atualmente, os kits de navegação entregues aos formandos da Náutica Martins da Cruz incluem dois cabos destinados ao treino dos nós. Assim, aquilo que é explicado durante a formação pode continuar a ser praticado autonomamente.

Com esses cabos, o formando pode:

  • repetir o Lais de Guia;
  • fazer um nó direito;
  • executar deliberadamente um nó torto para aprender a distingui-lo;
  • unir os cabos através de um nó de escota;
  • praticar os restantes nós tantas vezes quantas forem necessárias.

Um treino curto, repetido em vários momentos, é normalmente mais útil do que tentar memorizar todos os movimentos numa única sessão.

Os recursos digitais constituem também uma excelente ajuda. Um dos que consideramos particularmente úteis é o Animated Knots by Grog, que permite observar a construção dos nós através de animações, avançar ou recuar nos vários passos e repetir cada movimento.

Consultar Animated Knots by Grog — Boating Knots

A combinação é particularmente eficaz: ver como se faz, experimentar com um cabo e repetir.

Saber fazer um nó não é o mesmo que saber utilizá-lo

Esta é provavelmente a ideia mais importante de todo o artigo.

Um vídeo pode ensinar por onde passa o chicote. Uma fotografia pode mostrar o aspeto final. Uma animação pode repetir o movimento centenas de vezes.

No entanto, a bordo, o navegador tem primeiro de perceber:

  • O que pretende fazer?
  • Que forças vão atuar sobre o cabo?
  • Em que direção vão atuar?
  • Que material e tipo de cabo está a utilizar?
  • Será necessário libertar o cabo rapidamente?
  • Como se comportará o nó se a tensão diminuir?
  • Quais serão as consequências se o nó correr ou se desfizer?

Só depois de responder a estas perguntas poderá escolher uma solução adequada.

É esta diferença entre executar mecanicamente uma sequência e compreender uma manobra que procuramos transmitir na formação da Náutica Martins da Cruz.

O tempo presencial deve servir principalmente para explicar as funções de cada nó, corrigir erros, chamar a atenção para as suas limitações e verificar se o formando consegue executá-lo corretamente.

Um nó só está verdadeiramente aprendido quando pode ser feito sem hesitação e sem depender continuamente de uma imagem ou de um vídeo. A bordo, sobretudo durante uma manobra, raramente existe tempo para procurar instruções.

Este artigo foi útil?

Partilhe com outros navegadores.

Fontes e recursos recomendados

Aprender para navegar

Na Náutica Martins da Cruz, os nós de marinheiro representam uma parte de uma formação muito mais abrangente. É importante conhecê-los, compreender a sua utilização e saber executar corretamente aqueles que são verdadeiramente úteis a bordo.

Contudo, o objetivo não é memorizar os nomes de dezenas de nós.

O objetivo é reconhecer uma necessidade, avaliar os esforços envolvidos, escolher uma solução apropriada e executá-la corretamente quando ela é necessária.

Mais do que ensinar a fazer nós, procuramos formar navegadores.

Conheça a formação da Náutica Martins da Cruz.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top