Num tempo em que nos habituámos a procurar praticamente toda a informação através da Internet, existem sistemas muito mais antigos que continuam a desempenhar, silenciosamente, uma função fundamental na segurança da navegação.
Um deles é o NAVTEX.
É um equipamento relativamente simples, funciona automaticamente, não necessita de Internet, não exige qualquer subscrição e permite receber a bordo informação de segurança marítima transmitida por estações costeiras.
E talvez precisamente por funcionar tão discretamente seja um dos equipamentos cuja utilidade é menos conhecida por muitos navegadores de recreio.
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Afinal, o que é o NAVTEX?
NAVTEX resulta de NAVigational TEXt Messages e constitui um dos meios utilizados no âmbito do GMDSS — Global Maritime Distress and Safety System para a difusão automática de Maritime Safety Information (MSI).
Ou seja: informação destinada à segurança dos navios e das pessoas que navegam.
Ao contrário de uma emissão de voz por VHF ou de uma página consultada através da Internet, o navegador não precisa de estar à escuta no momento em que a informação é transmitida.
O recetor permanece ligado, recebe automaticamente as mensagens destinadas à área selecionada e guarda-as para consulta posterior.
É precisamente essa simplicidade que torna o sistema tão interessante.
518 kHz e 490 kHz
O serviço NAVTEX internacional utiliza 518 kHz, sendo as mensagens transmitidas em inglês.
Existe igualmente a frequência de 490 kHz, destinada a serviços nacionais, onde as administrações podem transmitir informação na respetiva língua.
Alguns equipamentos modernos recebem simultaneamente as duas frequências.
Estas frequências encontram-se muito abaixo das utilizadas pelo VHF marítimo. E essa diferença tem uma consequência extremamente importante: a propagação é também completamente diferente.
Como consegue uma estação NAVTEX chegar a centenas de milhas?
Aqui encontramos uma característica particularmente interessante do sistema.
No VHF estamos habituados a falar praticamente em propagação em linha de vista. Por isso, a altura das antenas é determinante: quanto mais elevadas estiverem, maior poderá ser a distância entre elas antes de a curvatura da Terra impedir a comunicação.
No NAVTEX é diferente.
A transmissão em 518 kHz utiliza essencialmente aquilo a que se chama onda de superfície — ground wave.
Em vez de se limitar à linha de vista radioelétrica, a onda propaga-se junto à superfície terrestre e consegue acompanhar, dentro de determinados limites, a própria curvatura da Terra. Sobre a água do mar, devido à sua elevada condutividade, este tipo de propagação é particularmente favorável.
É isto que permite a uma estação costeira NAVTEX ser recebida a centenas de milhas.
A IMO considera normalmente áreas de serviço da ordem das 250 a 400 milhas náuticas, embora o alcance efetivamente obtido dependa da estação transmissora, potência utilizada, condições de propagação, nível de ruído radioelétrico e qualidade da instalação recetora.
É também por isso que não devemos aplicar ao NAVTEX a regra que utilizamos no VHF de que a antena tem necessariamente de estar no topo do mastro para aumentar o horizonte radioelétrico. No NAVTEX, a altura da antena não condiciona o alcance da mesma forma.
Numa embarcação de recreio, mais importante do que colocá-la a dezenas de metros de altura é possuir uma antena adequada, corretamente instalada e, sobretudo, afastada tanto quanto possível de fontes de interferência elétrica e eletrónica.
Alternadores, carregadores, fontes de alimentação, inversores, computadores e outros equipamentos podem produzir ruído capaz de prejudicar significativamente a receção.
Não confundir onda de superfície com onda ionosférica
Esta distinção também merece ser feita.
No artigo anterior falámos da receção de cartas meteorológicas através de HF, onde podemos recorrer à propagação ionosférica para receber transmissões provenientes de estações situadas a milhares de quilómetros.
Nesse caso, determinadas ondas de rádio atingem regiões ionizadas da alta atmosfera e regressam à superfície terrestre, permitindo comunicações muito para além do horizonte.
No NAVTEX internacional de 518 kHz, para a definição da cobertura normal do serviço, interessa-nos sobretudo a onda de superfície.
São, portanto, dois mecanismos físicos diferentes:
HF a longa distância → propagação ionosférica
NAVTEX → predominantemente onda de superfície
E é precisamente esta última que permite estabelecer uma cobertura costeira muito extensa e relativamente previsível.
O mundo está dividido em NAVAREAs
Para organizar toda a informação de segurança marítima mundial, os oceanos encontram-se divididos em NAVAREAs, cada uma com a respetiva coordenação.
Portugal continental encontra-se na NAVAREA II, correspondente a uma vasta região do Atlântico Oriental.
Dentro de cada NAVAREA existem diferentes estações NAVTEX, cada uma identificada por uma letra.
Na nossa região encontramos, entre outras, estações em Portugal, Espanha e França. A estação portuguesa de Monsanto, por exemplo, transmite o serviço internacional de 518 kHz com o identificador R; nos Açores existe a estação da Horta, identificada pela letra F no serviço internacional.
As estações não transmitem todas simultaneamente.
Cada uma dispõe de períodos de transmissão previamente estabelecidos e coordenados internacionalmente, evitando que estações cujas áreas de cobertura possam sobrepor-se transmitam ao mesmo tempo.
O sistema funciona assim permanentemente, 24 horas por dia, sem qualquer intervenção do navegador.
O que recebemos?
É aqui que o NAVTEX revela verdadeiramente a sua utilidade.
Entre as informações que podem ser difundidas encontram-se:
- avisos à navegação;
- avisos meteorológicos;
- previsões meteorológicas;
- informação relativa a busca e salvamento;
- informação sobre gelo, quando aplicável;
- alterações ou deficiências importantes em ajudas à navegação;
- e outras mensagens urgentes relacionadas com a segurança marítima.
Assim, podemos receber informação sobre uma boia fora da posição, uma luz ou farol temporariamente inoperacional, trabalhos ou operações no mar, áreas onde decorrem exercícios ou outras situações suscetíveis de constituir perigo para a navegação.
Algumas categorias de segurança são consideradas de tal importância que um recetor NAVTEX conforme com os requisitos do sistema não deve permitir que sejam simplesmente excluídas pelo utilizador — designadamente os avisos à navegação, avisos meteorológicos e informação de busca e salvamento.
O NAVTEX sabe o que queremos receber
Uma das características mais interessantes do sistema é precisamente a possibilidade de filtragem.
Cada mensagem possui um cabeçalho que permite ao equipamento identificar, entre outros elementos, a estação que a transmitiu e a categoria da mensagem.
Deste modo podemos configurar o equipamento para receber as estações que interessam à nossa navegação e evitar acumular mensagens provenientes de áreas que não nos dizem respeito.
É importante, contudo, esclarecer uma ideia: não selecionamos propriamente “um porto” ou uma determinada distância da costa no aparelho.
Selecionamos as estações transmissoras relevantes para a nossa área de navegação e, dentro dos limites permitidos pelo sistema, as categorias de mensagens que pretendemos receber.
Se estivermos a preparar uma viagem, é aconselhável selecionar não apenas a estação correspondente à zona onde nos encontramos, mas também aquela ou aquelas que cobrem a área para onde vamos navegar.
Do rolo de papel ao ecrã
Os primeiros recetores NAVTEX imprimiam literalmente as mensagens recebidas.
Quem navegou com esses equipamentos recordará os pequenos rolos de papel que iam registando, linha após linha, as mensagens recebidas.
Funcionava, mas tinha inconvenientes evidentes: papel, mecanismos de impressão, consumíveis e uma quantidade considerável de informação que nem sempre interessava guardar.
Os equipamentos modernos resolveram o problema.
As mensagens aparecem diretamente num ecrã e ficam armazenadas em memória, podendo ser consultadas posteriormente.
É o caso do equipamento da NASA Marine que utilizamos a bordo do FORMIDÁVEL, da Náutica Martins da Cruz. Estes equipamentos da gama Target NAVTEX recebem 518 e 490 kHz, apresentam as mensagens num ecrã LCD e mantêm-nas em memória, eliminando completamente a necessidade do antigo rolo de papel.
O conceito, contudo, continua exatamente o mesmo: deixar o equipamento ligado e permitir que ele faça o seu trabalho.
Um equipamento que deve permanecer ligado
Esta é provavelmente uma das recomendações práticas mais importantes.
Um NAVTEX desligado não recebe mensagens.
Parece evidente, mas significa que ligar o equipamento apenas quando já estamos a sair para o mar pode fazer com que ainda não tenhamos recebido uma transmissão importante.
As próprias recomendações de operação do sistema aconselham que o equipamento seja ligado com antecedência — ou, preferencialmente, permaneça continuamente ligado.
O consumo elétrico destes recetores é geralmente muito reduzido, precisamente porque foram concebidos para esse funcionamento permanente.
Quando chegamos ao barco podemos então consultar as mensagens recebidas desde a última utilização e verificar se existe alguma informação relevante para a navegação que pretendemos realizar.
E em Portugal?
A legislação portuguesa relativa ao equipamento das embarcações de recreio contempla expressamente a receção de informação de segurança marítima nas embarcações destinadas às áreas de navegação mais exigentes, podendo essa receção ser assegurada, consoante a cobertura aplicável, através de NAVTEX internacional ou de outros sistemas previstos regulamentarmente.
Nas embarcações preparadas para navegação oceânica, como as atuais embarcações de recreio Tipo 1 — classificação do FORMIDÁVEL, embarcação da Náutica Martins da Cruz, preparada e equipada para navegação oceânica sem limite de área —, esta capacidade de receber informação de segurança marítima assume naturalmente particular importância.
O FORMIDÁVEL encontra-se, por isso, equipado com um conjunto alargado de meios de navegação, comunicações e segurança adequados a este tipo de navegação, entre os quais se integra o NAVTEX.
Mais do que uma obrigação regulamentar, porém, interessa compreender por que razão existe.
Quando estamos no mar, saber que uma determinada boia desapareceu, que uma luz está apagada, que existe um perigo temporário numa determinada posição ou que foi emitido um aviso meteorológico não é informação acessória.
Pode alterar uma decisão de navegação.
Simples, automático e gratuito
Talvez esta seja a melhor forma de resumir o NAVTEX.
Não substitui o VHF.
Não substitui as cartas náuticas.
Não substitui a meteorologia.
Não substitui uma correta preparação da viagem.
E não substitui os restantes meios modernos de obtenção de informação a bordo.
Mas possui uma enorme vantagem: é um sistema internacional concebido especificamente para levar automaticamente informação de segurança marítima aos navios.
Não necessita de cobertura de rede móvel.
Não necessita de Wi-Fi.
Não necessita de Starlink.
Não necessita de uma aplicação.
Não necessita de subscrição.
Basta existir uma estação NAVTEX ao alcance, termos um recetor corretamente instalado e… deixá-lo receber.
É uma tecnologia com várias décadas, mas continua plenamente atual.
E há uma última questão que deixámos deliberadamente por explicar.
Falámos várias vezes em “avisos à navegação”.
Mas o que é, afinal, um aviso à navegação? E será a mesma coisa que um Aviso aos Navegantes?
Não é.
E a diferença é suficientemente importante para merecer um artigo próprio.
Será precisamente esse o tema de uma das nossas próximas publicações.
Fontes e referências técnicas
- IMO — NAVTEX Manual, revisão 2: funcionamento do serviço, frequências, cobertura, estações e categorias de mensagens.
- Guarda Costeira dos EUA — Practical Instructions for the Use of a NAVTEX Receiver: guia prático sobre a seleção de estações e mensagens e a operação contínua do recetor.
- IHO — Navigation Warnings on the Web: mapa das NAVAREAs e organização internacional dos avisos à navegação.
- Diário da República — Portaria n.º 1464/2002: disposições portuguesas sobre os equipamentos das embarcações de recreio.
- Instituto Hidrográfico — ANAVNET: consulta oficial de avisos costeiros, locais, meteorológicos e Avisos aos Navegantes.
- NASA Marine — Target NAVTEX Pro-Plus V2: características de um equipamento atual da gama referida no artigo.
