Motores marítimos: manutenção e avarias que pode reconhecer a bordo

Um motor marítimo que perde força quando precisamos de entrar num porto, que aquece inesperadamente ou que deixa de carregar as baterias pode alterar todos os planos de navegação. Muitas vezes, porém, o primeiro passo não exige desmontar a máquina: exige perceber por onde passam o combustível, o óleo, a energia e a água de refrigeração.

Nas aulas práticas dos nossos cursos, explicamos aos futuros navegadores os principais componentes e circuitos do motor da embarcação.

As sessões de máquinas marítimas, conduzidas pelo Comandante Martins da Cruz, Coordenador Pedagógico e Formador da Náutica Martins da Cruz, aprofundam esses conhecimentos na perspetiva prática do navegador. Com exemplos e intervenções reais no FORMIDÁVEL, mostramos como identificar sinais de avaria, prevenir problemas e realizar as verificações ao alcance do navegador de recreio.

O ponto de partida é uma pergunta útil para qualquer navegador de recreio, quer navegue na sua embarcação, quer numa embarcação alugada: que circuitos devo saber identificar e o que podem indicar os sintomas que observo? Ao seguir o percurso do combustível, do óleo, da energia e da água de refrigeração, torna-se mais fácil perceber o que verificar a bordo e quando é necessário recorrer a terceiros.

Antes da avaria: conhecer o percurso e observar

No FORMIDÁVEL, o motor é um Volvo Penta 2003, de três cilindros, ligado ao hélice por uma caixa redutora e um veio. Noutras embarcações, a transmissão pode ser diferente, como acontece com um saildrive. No entanto, o princípio de diagnóstico mantém-se: identificar o equipamento instalado e seguir o percurso de cada circuito no próprio barco.

Motor Volvo Penta 2003 do FORMIDÁVEL
Motor do FORMIDÁVEL.

Depois de uma saída, o Comandante observa a zona debaixo do motor. Há gasóleo, óleo ou água onde antes não havia? Alguma mangueira perdeu a firmeza ou apresenta sinais de desgaste? Uma pequena fuga identificada cedo é mais fácil de resolver do que uma paragem em viagem. Por isso, uma das principais recomendações da Náutica Martins da Cruz é OBSERVAR e reconhecer a posição de válvulas, filtros e das bombas ANTES de precisar deles.

O objetivo não é formar mecânicos numa noite.É ajudar cada navegador a observar sintomas, seguir um circuito e distinguir o que consegue verificar daquilo que deve confiar a um técnico.

Gasóleo ou gasolina: uma diferença importante para a segurança

Embora os princípios gerais de funcionamento e manutenção tenham muitos pontos em comum, existem diferenças importantes entre motores a gasóleo e a gasolina, sobretudo no que respeita ao combustível e à segurança a bordo.

O gasóleo é consideravelmente menos volátil do que a gasolina. A gasolina liberta facilmente vapores inflamáveis que, em determinadas concentrações, podem formar com o ar uma mistura explosiva. Como esses vapores são mais densos do que o ar, podem acumular-se nas zonas mais baixas e pouco ventiladas da embarcação, nomeadamente no compartimento do motor e no fundo do casco.

Por esse motivo, numa embarcação equipada com motor a gasolina instalado num compartimento fechado, qualquer cheiro a gasolina deve ser encarado como um sinal de alerta. Antes do arranque é fundamental assegurar a ventilação adequada do compartimento e, quando exista um sistema de ventilação forçada, utilizá-lo de acordo com as indicações do fabricante. Uma fuga de combustível, uma ligação elétrica deficiente, uma faísca ou outro ponto de ignição podem, nestas condições, provocar um incêndio ou uma explosão.

Nos motores a gasolina, também os componentes elétricos instalados em espaços onde possam existir vapores inflamáveis devem ser adequados para utilização em ambiente marítimo e concebidos para não constituírem uma fonte de ignição. Não é, portanto, indiferente substituir um componente por outro aparentemente equivalente que não tenha sido concebido para essa aplicação.

Num motor a gasóleo, o risco associado à formação de uma atmosfera explosiva é substancialmente menor nas condições normais encontradas a bordo, mas isso não significa ausência de risco de incêndio. Fugas de combustível ou óleo sobre superfícies quentes, instalações elétricas deficientes e outros problemas continuam a exigir atenção.

● DICA A BORDO

Em qualquer tipo de motor, um cheiro anormal a combustível, vestígios de fuga ou combustível acumulado no compartimento do motor devem ser investigados antes de pôr o motor em funcionamento.

O motor perde força ao acelerar: começar pelo combustível

Num motor a gasóleo, o combustível sai do depósito, atravessa normalmente um pré-filtro separador de água, passa pela bomba de alimentação e pelo filtro fino, seguindo depois para o sistema de injeção.

Quando um motor a gasóleo trabalha ao ralenti, mas perde força ao acelerar, pode não estar a receber combustível suficiente. Convém começar pelo percurso mais simples: confirmar se a válvula de combustível está aberta, observar o pré-filtro separador de água e verificar se há filtros obstruídos, fugas ou entrada de ar nas ligações.

Em viagem, a agitação provocada pelo mau tempo pode levantar resíduos acumulados no fundo do depósito. Esses resíduos podem obstruir os filtros e perturbar a alimentação do motor. A falha pode surgir, assim, precisamente quando o navegador mais precisa do motor para enfrentar as condições que provocaram a agitação.

Ao substituir filtros, é importante usar as juntas adequadas, evitar apertar excessivamente o copo de vidro do pré-filtro, retirar o ar do circuito conforme o manual do motor e confirmar que não existem fugas.

Substituir um filtro obstruído pode permitir prosseguir, mas, se o depósito continuar contaminado, a falha poderá repetir-se. Nesse caso, é necessário inspecionar e limpar o depósito.

Ao longo dos anos, a presença de água no depósito pode favorecer o desenvolvimento de microrganismos e a formação de resíduos no combustível. As variações de temperatura e a condensação são uma das formas pelas quais essa água pode surgir. Os depósitos metálicos, incluindo os de aço inoxidável, são mais suscetíveis à condensação do que alguns depósitos de materiais compósitos. Atualmente, existem produtos destinados a prevenir o crescimento microbiano, mas a sua utilização deve respeitar as recomendações do fabricante do motor e não substitui a remoção da água nem a limpeza de um depósito contaminado.

No antigo depósito do FORMIDÁVEL, foi encontrada uma acumulação de resíduos. Perante o estado do depósito, optámos por substituí-lo por um depósito em material plástico, o que resolveu inteiramente a nossa preocupação.

Circuito de combustível
Depósito de combustível do FORMIDÁVEL, produto utilizado na prevenção do desenvolvimento bacteriano no gasóleo, indicador de nível e resíduos encontrados no anterior depósito de aço inoxidávell.

● DICA A BORDO

No que respeita ao circuito de combustível, uma das recomendações da Náutica Martins da Cruz é garantir que a válvula permanece acessível e não pode ser fechada inadvertidamente pela arrumação de material a bordo.

Combustível a bordo: evitar que uma pequena fuga chegue à água

Uma fuga de combustível não representa apenas um problema para o funcionamento e para a segurança da embarcação. Mesmo pequenas quantidades de gasóleo ou gasolina na água podem provocar poluição, sendo frequente observar nas docas a película característica de hidrocarbonetos à superfície.

Durante o abastecimento, é importante evitar encher excessivamente o depósito e estar atento ao respiradouro, por onde o combustível pode sair quando o depósito fica demasiado cheio. Convém também ter material absorvente disponível junto ao ponto de abastecimento para atuar imediatamente perante um derrame.

Da mesma forma, combustível, óleo usado e outros fluidos retirados durante operações de manutenção não devem ser descarregados para a água nem para a rede de águas pluviais. Devem ser recolhidos em recipientes adequados e encaminhados para os locais destinados à recolha destes resíduos.

Perante um derrame na água, não se deve utilizar detergente para fazer desaparecer a película de combustível. O detergente pode dispersar visualmente o hidrocarboneto, mas não o elimina e pode aumentar a sua dispersão no meio aquático.

● DICA A BORDO — DURANTE O ABASTECIMENTO

Antes de abastecer, tenha material absorvente preparado e acompanhe permanentemente o abastecimento. Se surgir combustível pelo respiro ou ocorrer um derrame, interrompa imediatamente o abastecimento e procure contê-lo antes que chegue à água.


● DICA A BORDO — DURANTE A MANUTENÇÃO

Durante operações de manutenção, tenha sempre à disposição, em quantidade suficiente, material absorvente e meios de contenção, como recipientes adequados, sacos de lixo resistentes e papel absorvente.

Óleo: uma verificação simples que não deve ser esquecida

O óleo lubrifica as peças móveis do motor. Antes de navegar, verificar o nível na vareta e confirmar que está dentro dos limites indicados pelo fabricante é um gesto rápido, mas importante, e claro que faz parte do nosso checklist de segurança.

O tipo de óleo e os intervalos de substituição devem corresponder ao manual do motor, porque variam de modelo para modelo.

Verificação e manutenção do óleo
Verificação do nível de óleo através da vareta do motor.

● DICA A BORDO

Recomendamos ter sempre a bordo óleo suficiente para uma substituição ou reposição completa do óleo do motor — por exemplo, um garrafão de 5 litros, quando essa quantidade for adequada ao motor — e, adicionalmente, uma embalagem mais pequena, guardada junto ao motor, para pequenas reposições que possam ser necessárias aquando da verificação do nível antes de cada saída.

No FORMIDÁVEL, no decorrer da manutenção anual ao motor, a mudança é feita por aspiração através do tubo da vareta, uma solução habitual quando não há acesso prático ao fundo do cárter. O óleo é aquecido previamente para facilitar a extração, é recolhido num recipiente adequado e descarregado em conformidade com as boas práticas. O filtro também é subtituido anualmente.

Durante a reposição do óleo, o nível é verificado na vareta, sem partir do princípio de que conseguiu extrair a capacidade total indicada para o motor.

Baterias sem carga: correia ou alternador?

A correia transmite o movimento do motor ao alternador. Se escorregar, estiver solta ou partir, as baterias podem deixar de carregar. Por isso, a correia deve ser regularmente inspecionada e a sua tensão verificada de acordo com as indicações do fabricante.

Numa viagem de Portimão para Punta Umbría, a tripulação do FORMIDÁVEL verificou simultaneamente a perda de indicação do conta-rotações e a ausência de carga das baterias. Neste caso, a origem da avaria estava no alternador. A experiência levou-nos a passar a transportar a bordo, além de uma correia, um alternador sobressalente.

O episódio mostra por que é útil cruzar sinais: conta-rotações sem indicação e ausência de carga justificam verificar a correia, o alternador e as respetivas ligações.

Quando surgem sinais de ausência de carga, é importante saber distinguir um problema de correia de uma avaria do alternador ou das respetivas ligações. Este diagnóstico e os procedimentos a seguir são abordados com maior detalhe no nosso artigo dedicado ao sistema de carga do motor.

● DICA A BORDO

Antes de qualquer intervenção elétrica desta natureza, é necessário isolar as baterias e identificar as ligações tal como estavam montadas.

O motor aquece: seguir o caminho da água

Para compreender uma subida de temperatura, é preciso começar por identificar como o motor é refrigerado.

Em alguns motores, a água do mar circula pelo interior do próprio motor. Noutros, a água do mar passa por um permutador de calor, onde arrefece um circuito separado de líquido de refrigeração. É esse líquido que circula pelo interior do motor. Neste segundo sistema existem, portanto, uma bomba para a água do mar e outra para o líquido de refrigeração.

Sistema de refrigeração
Circuito de água de refrigeração do motor do FORMIDÁVEL: localização, desmontagem e rotor da bomba de água (impeller).

Se o motor aquece ou deixa de sair pelo escape a quantidade habitual de água, há que verificar a circulação. Assim que a manobra o permitir, deve parar-se o motor e seguir o circuito instalado: a válvula de fundo está aberta? O filtro de água do mar está limpo? A bomba está a funcionar? Há mangueiras danificadas, fugas ou alguma passagem obstruída?

Uma das peças a verificar é o rotor da bomba de água do mar, conhecido como impeller. As suas pás podem desgastar-se ou partir-se. Mais raramente, a borracha pode separar-se do centro metálico: este continua a rodar, mas deixa de transmitir o movimento às pás.

Dica: Se faltarem pás ao rotor retirado, é importante procurá-las mais à frente no circuito, onde podem impedir a passagem da água.

Num motor refrigerado diretamente por água do mar, é necessário verificar anualmente o estado do ânodo de zinco, que protege da corrosão as superfícies internas do motor em contacto com a água salgada. Num motor refrigerado por líquido de refrigeração, a água do mar circula pelo permutador de calor, onde também existe um ânodo de zinco cujo estado deve ser verificado. Além disso, é necessário verificar, antes de navegar e com o motor frio, o nível do líquido de refrigeração do circuito fechado. De notar que a localização dos ânodos e os procedimentos de manutenção dependem do modelo.

O cotovelo de escape também pode ficar obstruído por depósitos no ponto onde a água se junta aos gases de escape. A bordo do Formidável garantimos a disponibilidade de um cotovelo de escape extra antes de iniciar qualquer viagem de navegaçao.

Ainda no que respeita ao circuito de refrigeração, uma temperatura irregular ou anormal no motor pode estar relacionada com o termóstato.

Conhecer o percurso da água no nosso próprio motor permite interpretar melhor estes sinais e navegar com mais segurança e autonomia.

Ferramentas e sobressalentes: escolher para o próprio motor

Uma chave de filtros sem espaço para trabalhar, ou uma correia que não serve naquele modelo, pouco ajudam no mar. Por isso, o Comandante Martins da Cruz recomenda SEMPRE testar a bordo as ferramentas necessárias e organizar os sobressalentes por circuito. No FORMIDÁVEL, entre outros materiais, viajam filtros, juntas, óleo, correia, vários rotores da bomba de água, mangueira de combustível e componentes de substituição identificados para o motor instalado.

Ferramentas e sobressalentes a bordo
Algumas das ferramentas transportadas a bordo do FORMIDÁVEL para manutenção e pequenas intervenções

O princípio é simples: guardar o que se sabe localizar, instalar e verificar. Fotografias antes de desmontar, recipientes para recolher fluidos e uma lista atualizada de peças completam a caixa de ferramentas.

Quando uma intervenção ultrapassa os conhecimentos ou os meios disponíveis a bordo, podemos ter de recorrer ao fabricante ou a um representante da marca. Reconhecer esse limite também faz parte de navegar com autonomia.

Outros sistemas de propulsão

Neste artigo concentrámo-nos essencialmente nos motores interiores utilizados habitualmente nas embarcações de recreio, com particular atenção aos motores a gasóleo e às situações que o navegador pode reconhecer e verificar a bordo.

Os motores fora de borda, bem como a propulsão elétrica e as novas soluções de propulsão e produção de energia a bordo, incluindo a utilização de energia solar, apresentam características, procedimentos e cuidados específicos que justificam uma abordagem própria. Serão, por isso, objeto de futuras publicações da Náutica Martins da Cruz.

EM RESUMO

  • Perante um sinal de avaria o motor, observe primeiro o que mudou.
  • Identifique o circuito relacionado com o problema e siga-o passo a passo.
  • Verifique os pontos que estão ao alcance do navegador e reconheça quando é necessário recorrer a terceiros.
  • A preparação começa antes de largar: manutenção, checklists, ferramentas adequadas e sobressalentes compatíveis com o motor instalado.

PARA SABER MAIS

Neste artigo abordámos apenas alguns dos aspetos essenciais. Na nossa sessão dedicada ao MOTORES MARÍTIMOS, aprofundamos estas e outras situações com muito mais detalhe, recorrendo a vídeos, exemplos práticos e situações reais para mostrar como reconhecer sintomas, compreender a sua possível origem, saber o que podemos verificar ou fazer a bordo e conhecer outros procedimentos úteis em situações de avaria, entre os quais o arranque manual do motor, no caso de falha do motor de arranque.

Esta sessão integrará, como módulo, o futuro CURSO DE AUTONOMIA E SEGURANÇA DA NAVEGAÇÃO da Náutica Martins da Cruz, no qual esta passagem do conhecimento para a prática será desenvolvida de forma mais profunda e abrangente.

Este artigo foi útil?

Partilhe com outros navegadores.

WhatsApp E-mail

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top