Balsas salva-vidas: o que realmente temos dentro daquela caixa?

A balsa salva-vidas é provavelmente um dos equipamentos de segurança mais importantes que podemos ter a bordo. Curiosamente, é também um daqueles que muitos navegadores nunca viram em funcionamento.

Compramos uma caixa — ou um saco — instalamo-la a bordo e esperamos nunca precisar de descobrir o que está lá dentro.

Mas é precisamente aqui que começa o problema.

Na Náutica Martins da Cruz consideramos que ninguém deveria comprar ou instalar uma balsa salva-vidas sem compreender primeiro como funciona, como é construída, como deve ser lançada e, idealmente, sem ter visto uma balsa semelhante aberta e insuflada.

Porque, numa emergência, não será esse o melhor momento para descobrir.

Balsa salva-vidas insuflada com equipamento de emergência
Balsa salva-vidas insuflada e respetivo equipamento.

Afinal, o que é uma balsa salva-vidas?

Simplificando, uma balsa salva-vidas é uma pequena embarcação pneumática de sobrevivência, normalmente equipada com uma cobertura, sistemas de estabilização (apenas em alguns casos) e algum equipamento de emergência, acondicionada dentro de um contentor rígido ou de um saco próprio.

Nas balsas destinadas à náutica de recreio encontramos frequentemente a referência à ISO 9650, atualmente ISO 9650-1:2022, norma especificamente destinada a balsas insufláveis para pequenas embarcações até 24 metros.

É importante não confundir esta norma com SOLAS (Safety of Life at Sea). As balsas SOLAS destinam-se ao universo regulamentar dos navios abrangidos pela Convenção SOLAS e obedecem a requisitos próprios (diferente dos exigidos para a náutica de recreio abaixo dos 24 metros). A própria ISO (International Organization for Standardization) esclarece que a ISO 9650 não se aplica às balsas exigidas aos navios pela SOLAS.

Expressões comerciais como coastal, offshore ou ocean também não devem, por si só, servir para escolher uma balsa. O que interessa é conhecer a norma a que efetivamente obedece, as condições para que foi concebida, a lotação, o equipamento que contém e as recomendações do fabricante.

6 IDEIAS ESSENCIAIS

01

CONHECER ANTES DE PRECISAR

Conheça a balsa, o seu funcionamento e o equipamento existente no interior antes de uma situação de emergência.

02

ABANDONAR É O ÚLTIMO RECURSO

Enquanto a embarcação continuar a constituir o local mais seguro, devemos permanecer nela.

03

FIXAR → LANÇAR → PUXAR O CABO DE DISPARO

Antes de lançar a balsa, confirme que o cabo de disparo está corretamente fixado à embarcação. Lançar a balsa a SOTAVENTO. Puxar o cabo de disparo para acionar a garrafa de enchimento da balsa.

04

PRIVILEGIAR A QUALIDADE DA BALSA

Compartimentos de flutuação independentes, bons materiais, fundo, cobertura, estabilidade e sistema de embarque são características fundamentais.

05

SABER O QUE EXISTE NO INTERIOR

Conheça previamente o equipamento da sua balsa: não espere por uma emergência para descobrir o que tem disponível.

06

INSTALAR PARA PODER UTILIZAR RAPIDAMENTE

A balsa deve estar protegida, mas também acessível e preparada para ser lançada rapidamente.
Se precisar dela daqui a 30 segundos, consegue realmente lançá-la?

A lição dramática da Fastnet de 1979

Existe uma regra de sobrevivência no mar que merece ser recordada:

A balsa deve ser o último recurso, e não a primeira opção.

A Fastnet de 1979 tornou esta ideia particularmente evidente.

A tempestade que atingiu a regata provocou 15 mortes entre os participantes e levou ao abandono de 24 veleiros. O inquérito realizado posteriormente revelou um dado impressionante: apenas cinco dos veleiros abandonados não foram recuperados e sete pessoas perderam a vida em três balsas, apesar de os respetivos veleiros terem sido posteriormente recuperados.

Isto não significa que nunca se deva abandonar uma embarcação. Significa apenas: abandona-se quando permanecer a bordo se tornou mais perigoso do que entrar na balsa.

Enquanto a nossa embarcação continuar a constituir o local mais seguro, devemos permanecer nela.

A Fastnet teve consequências profundas nas regras e na cultura de segurança da vela oceânica e na forma como passaram a ser encarados o abandono da embarcação e os equipamentos de sobrevivência.

O cabo que não podemos esquecer

Da caixa ou saco da balsa sai um cabo — o painter, na terminologia internacional.

Antes de lançar a balsa, este cabo tem de estar corretamente fixado a um ponto resistente da embarcação, salvo quando exista um sistema específico de lançamento automático instalado de acordo com as instruções do fabricante.

Este sistema automático de libertação é normalmente realizado através de um dispositivo hidrostático, que liberta a balsa do respetivo suporte quando a embarcação se afunda. Uma vez libertada, a balsa pode subir até à superfície e, através do seu cabo de disparo, acionar o sistema de insuflação. Em Portugal, este sistema automático de libertação é obrigatório nas embarcações de recreio dos tipos A e B, a motor e com mais de 15 metros de comprimento. Importa, contudo, salientar que esta obrigação se aplica especificamente às embarcações a motor, não abrangendo, por esta disposição, os veleiros com mais de 15 metros. O sistema deve permitir que as jangadas pneumáticas flutuem livremente e se insuflem automaticamente em caso de naufrágio.

Disparador hidrostático para libertação automática de balsa salva-vidas
Dispositivo hidrostático utilizado num sistema automático de libertação da balsa salva-vidas.

Como lançar a balsa salva-vidas?

O procedimento é simples:

Sequência para lançar uma balsa salva-vidas: fixar o cabo, lançar a SOTAVENTO e puxar o cabo de disparo

A balsa deve ser lançada a sotavento, de forma a que o vento a afaste da embarcação. Esta posição reduz também o risco de contacto com o casco, balaústres ou outras saliências e coloca a balsa no lado mais abrigado do vento, o que facilita o seu controlo e o embarque da tripulação.

Ao puxarmos o cabo até ao ponto de acionamento, libertamos o gás comprimido do sistema de insuflação.

Atirar simplesmente uma balsa para a água sem garantir que o cabo se encontra fixo à embarcação pode significar vê-la afastar-se da embarcação e perder-se precisamente quando mais precisamos dela.

Parece um erro impossível.

Não é.

Há acidentes em que aconteceu exatamente isso.

Por essa razão, uma das primeiras coisas que aconselhamos quando alguém entra numa embarcação que não conhece — particularmente numa embarcação alugada — é identificar a balsa, perceber como é libertada e confirmar como está disposto e fixado o respetivo cabo de disparo.

A Náutica Martins da Cruz disponibiliza gratuitamente a todos os seus formandos checklists de grande profundidade para aluguer ou para decisão de compra de uma embarcação, que evidentemente incluem esta verificação e dezenas de outras.

O que acontece quando puxamos o cabo de disparo da balsa?

A balsa encontra-se compactamente acondicionada e o acionamento liberta gás pressurizado para os compartimentos insufláveis.

Trata-se de um processo automático e muito rápido.

Durante a insuflação, as válvulas de sobrepressão podem libertar gás. Para alguém que nunca viu uma balsa abrir, o ruído pode ser surpreendente e até transmitir a impressão de que a balsa está furada.

Nas demonstrações realizadas pela Náutica Martins da Cruz já observámos várias vezes precisamente essa reação.

A primeira vez que se vê uma balsa insuflar é muito diferente de olhar para uma fotografia num manual.

É também uma das razões pelas quais a Náutica Martins da Cruz realiza exercícios práticos, incluindo abertura de balsas em terra e exercícios em piscina, nos quais os participantes podem entrar, sair, experimentar procedimentos de embarque e inclusivamente perceber o que significa ter de endireitar uma balsa virada.

Exercício prático ministrado pelo Comandante Martins da Cruz com balsa salva-vidas em piscina
Exercício prático com balsa salva-vidas em piscina.

Dois compartimentos podem fazer toda a diferença

Uma das características que valorizamos particularmente numa boa balsa é a existência de compartimentos de flutuação independentes.

O princípio é simples: uma avaria num compartimento não deve significar imediatamente a perda de toda a capacidade de flutuação.

A ISO 9650 estabelece requisitos de construção, desempenho, estabilidade, insuflação, embarque, cobertura, válvulas de sobrepressão e outros elementos fundamentais.

Na nossa perspetiva, estes aspetos estruturais são muito mais importantes do que uma longa lista de acessórios no seu interior.

Um bom fundo isolante, compartimentos independentes, bons materiais, uma cobertura eficaz, um sistema de embarque adequado, lastros eficientes e uma boa construção interessam-nos mais do que comprar uma balsa aparentemente muito equipada, mas estruturalmente medíocre.

A âncora flutuante

Outro componente essencial é a âncora flutuante, ou drogue.

A sua principal função é reduzir a deriva e, sobretudo, contribuir para a estabilidade e para uma orientação mais previsível relativamente ao vento e ao mar.

Esta função é particularmente importante porque, depois de transmitida a nossa posição através do MAYDAY (sinal de socorro), DSC (Digital Selective Calling), EPIRB (Emergency Position-Indicating Radio Beacon) ou de outros meios, em princípio interessa-nos permanecer tão próximos quanto possível da posição comunicada.

Além disso, a âncora flutuante pode ainda ser utilizada para ajudar a deslocar a balsa em pequenas distâncias. Pode ser lançada na direção em que pretendemos deslocar-nos e, recolhendo posteriormente o seu cabo, conseguir algum movimento. Não estamos, evidentemente, a falar de navegar com seguimento numa balsa, mas de pequenos deslocamentos que, em determinadas circunstâncias, podem fazer a diferença — por exemplo, para nos afastarmos de um perigo ou aproximarmo-nos de outra embarcação ou de um navio de salvamento.

Fole de enchimento, remendos e variações de temperatura

Uma balsa possui igualmente um fole de enchimento ou bomba manual e um conjunto de reparação.

O fole não está lá por acaso.

Ao longo do dia, a temperatura no interior dos compartimentos pode aumentar consideravelmente. O gás expande-se e as válvulas calibradas de sobrepressão protegem a estrutura. Quando a temperatura baixa, sobretudo durante a noite, a pressão também diminui.

Por isso, pode ser necessário repor pressão manualmente.

É precisamente para isso que existe o fole de enchimento.

É por isso que um fole robusto, simples e realmente utilizável não é um acessório secundário.

O mesmo se aplica ao material de reparação.

Uma pequena perfuração não deve necessariamente condenar a balsa, desde que saibamos onde está o material e como utilizá-lo.

E as revisões de uma balsa salva-vidas?

Aqui é importante evitar uma generalização, embora três anos seja a periodicidade mais provável.

Há balsas ISO 9650 para as quais são estabelecidos intervalos de três anos, e esta periodicidade é muito comum na náutica de recreio, mas há outros equipamentos e regimes — nomeadamente SOLAS — com requisitos diferentes.

Deve seguir-se a certificação da balsa, as instruções do fabricante e a regulamentação aplicável.

Numa revisão não interessa apenas saber se «a balsa enche».

São verificados o estado geral, a estanquidade, o sistema de insuflação, a garrafa, as válvulas e o equipamento; são ainda substituídos os consumíveis que tenham atingido a respetiva validade.

Entre estes encontra-se o material de reparação, vulgo remendos.

Na experiência da Náutica Martins da Cruz já encontrámos material que deveria ter sido renovado e não estava em condições aceitáveis. É precisamente por isso que consideramos importante escolher uma estação de serviço em que confiemos e conhecer aquilo que deve ser verificado. Sempre que fazemos a revisão da balsa do FORMIDÁVEL garantimos a nossa presença durante momentos da revisão para conhecer a própria balsa cheia e clarificar alguns aspetos acerca do nosso meio de salvamento.

Uma revisão não deve ser apenas um autocolante com uma nova data.

Revisão da balsa salva-vidas do Formidável

Balsa salva-vidas acondicionada antes da revisão
01

A balsa acondicionada

A balsa permanece acondicionada e protegida até ser necessária ou aberta para revisão.

Abertura de balsa salva-vidas durante uma revisão
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Abertura durante a revisão

Durante a revisão, a balsa é retirada da embalagem para inspeção dos seus componentes.

Sistema de disparo e insuflação de uma balsa salva-vidas
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O sistema de disparo

A balsa incorpora o sistema que permite acionar a insuflação quando o cabo de disparo é puxado.

Balsa salva-vidas completamente insuflada durante uma revisão
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A balsa completamente insuflada

Durante a revisão, a balsa é insuflada para permitir a verificação do seu estado e funcionamento.

Contentor rígido ou saco?

Existem ambas as soluções.

No FORMIDÁVEL optámos por uma balsa acondicionada em saco.

A escolha tem uma razão essencialmente prática: quando retiramos a balsa para manutenção ou quando a embarcação vai para estaleiro, um saco com boas pegas é mais fácil de manusear do que um contentor rígido e escorregadio.

Mesmo assim, não nos podemos esquecer do peso.

A balsa de dez pessoas do FORMIDÁVEL pesa aproximadamente 38 kg.

Numa emergência, com a embarcação a adornar, pessoas assustadas e mar alteroso, 38 kg são muito diferentes dos mesmos 38 kg levantados tranquilamente em terra.

Onde instalar a balsa salva-vidas?

Uma balsa inacessível é uma balsa que pode não existir quando precisamos dela.

Deve estar num local protegido tanto quanto possível, mas simultaneamente acessível e preparada para ser lançada rapidamente.

No FORMIDÁVEL está instalada na zona da popa, junto ao posto de governo, praticamente ao alcance do braço de quem está ao leme, com um sistema que permite libertá-la rapidamente.

É uma opção deliberada.

Não gostamos de ver uma balsa instalada na proa quando existe alternativa melhor. É uma zona muito exposta ao mar embarcado e, precisamente numa situação de mau tempo ou emergência, pode tornar-se um dos locais mais difíceis e perigosos para alcançar.

A localização ideal dependerá de cada embarcação, mas a pergunta deve ser sempre a mesma:

se precisarmos dela daqui a trinta segundos, conseguimos realmente lançá-la?

Balsa salva-vidas instalada na popa do FORMIDÁVEL
ACESSÍVEL PARA SER LANÇADA A localização da balsa a bordo do FORMIDÁVEL permite aceder-lhe rapidamente e lançá-la diretamente à água.
Cabo de disparo da balsa salva-vidas fixado à embarcação
CABO DE DISPARO FIXADO À EMBARCAÇÃO Antes do lançamento, é fundamental confirmar que o cabo de disparo se encontra corretamente fixado a um ponto resistente da embarcação.

O que existe dentro?

Não existe uma resposta única.

Uma balsa pode conter, consoante a sua categoria e equipamento, entre outros elementos, pagaias, apito, lanterna estanque, espelho de sinalização, medicamentos contra o enjoo, pirotécnicos, ajudas térmicas, remendos e cola, fole de enchimento, meios para retirar água e esponjas, anel de recolha de náufragos, navalha de pontas redondas.

Podem existir também diferenças importantes nas dotações de água, alimentação e primeiros socorros, incluindo a possibilidade de não existirem de todo.

A ISO 9650 contempla equipamentos diferentes em função, entre outros aspetos, do tempo previsível até ao salvamento. Existem packs destinados a situações inferiores e superiores a 24 horas, podendo os últimos acrescentar água, alimentação, primeiros socorros e outros equipamentos.

Portanto, «balsa oceânica», «offshore» ou «costeira» escrito num catálogo diz-nos muito menos do que algumas perguntas concretas:

Que norma cumpre? Para que condições foi ensaiada? Qual é o seu pack? Que equipamento contém? E exatamente o que existe lá dentro?

Em Portugal, a legislação tem uma particularidade

A legislação portuguesa aplicável às embarcações de recreio admite, para determinadas áreas de navegação, soluções diferentes.

A Portaria n.º 1464/2002 prevê, para a categoria correspondente às atuais embarcações de recreio tipo 4, a possibilidade de utilização de jangada pneumática, embarcação auxiliar ou balsa insuflável, desde que exista capacidade para a totalidade das pessoas embarcadas.

Existem, assim, soluções abertas que não proporcionam o mesmo nível de proteção que uma jangada pneumática fechada, com cobertura, fundo e meios de estabilização.

Na opinião da Náutica Martins da Cruz, esta possibilidade legal merece ser repensada, sobretudo porque uma embarcação tipo 4 pode realizar navegações costeiras relativamente extensas desde que permaneça dentro dos limites legais da respetiva zona de navegação.

Legalmente admissível não significa necessariamente que seja a solução que escolheríamos para a nossa própria segurança.

Nunca comprar apenas uma caixa

Esta é talvez a principal recomendação deste artigo.

Quando compramos uma balsa fechada, estamos literalmente a comprar algo que não conseguimos ver.

Por isso, sempre que possível, aconselhamos os nossos formandos a verem previamente uma unidade equivalente aberta.

O que devemos observar numa balsa aberta?

✓ Vejam os materiais.
✓ Experimentem o acesso.
✓ Observem o fundo.
✓ Vejam as pegas.
✓ Procurem as válvulas.
✓ Experimentem o fole.
✓ Percebam onde está a navalha de pontas redondas.
✓ Vejam como funciona a cobertura.
✓ Consultem a lista de equipamento.
✓ E, sobretudo, peçam o manual da balsa.

A ideia de que o único manual disponível está fechado dentro da própria balsa não nos parece aceitável. O navegador deve conhecer o equipamento antes da emergência e não começar a estudá-lo apenas depois de abandonar a embarcação.

Navalha de pontas redondas no interior de uma balsa salva-vidas
Navalha de pontas redondas colocada numa posição imediatamente acessível no interior da balsa salva-vidas.

Uma balsa salva-vidas não deve ser um mistério fechado dentro de uma caixa.

No próximo artigo veremos a parte que esperamos nunca ter de executar: como abandonar a embarcação, entrar numa balsa salva-vidas e organizar a sobrevivência a partir desse momento.

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