Balsas salva-vidas: abandonar a embarcação e sobreviver enquanto esperamos pelo salvamento

Balsa salva-vidas insuflada durante exercício em piscina
Exercício com balsa salva-vidas em piscina ministrado pelo Comandante Martins da Cruz.

No artigo anterior explicámos o que é uma balsa salva-vidas, como funciona, como deve ser escolhida, instalada e mantida.

Agora chegamos ao momento que esperamos nunca viver.

A situação deteriorou-se de tal forma que permanecer na embarcação deixou de ser a opção mais segura.

Chegou o momento de abandonar.

A partir daqui, cada decisão conta.

Antes de abandonar a balsa salva-vidas

Se houver tempo, o pedido de socorro deverá já ter sido transmitido e os equipamentos de localização de emergência preparados ou ativados.

Depois, uma das prioridades é proteger o corpo contra o frio.

Devemos vestir roupa quente, proteger tanto quanto possível a cabeça (com um gorro), as mãos (com luvas) e os pés (com meias) e vestir corretamente o colete salva-vidas. Se existirem fatos de imersão e a situação justificar a sua utilização, este é também o momento de os vestir.

E há um objetivo particularmente importante:

A hipotermia constitui um dos grandes perigos numa situação de abandono e a água retira calor ao organismo muito mais rapidamente do que o ar.

Por esse motivo, entrar diretamente na balsa pode fazer uma diferença muito grande.

Se estiver imediatamente disponível algum material que possa ser útil — roupa, água, alimentos, cabos ou equipamento de emergência — devemos levá-lo.

Mas não devemos perder tempo a procurar objetos sem importância para a nossa sobrevivência.

Quando chegou o momento de abandonar, a prioridade são as pessoas.

Entrar na balsa

Uma coisa é entrar numa balsa a partir do convés.

Outra, completamente diferente, é tentar fazê-lo a partir da água.

Mesmo com as escadas, rampas ou sistemas de embarque existentes nas balsas modernas, uma pessoa molhada, cansada, com roupa e colete salva-vidas pode ter uma enorme dificuldade em elevar o próprio corpo.

Por isso, quem já se encontra dentro da balsa deve ajudar quem ainda está na água.

É também uma das razões pelas quais consideramos tão importantes os exercícios práticos.

Na Náutica Martins da Cruz realizamos exercícios com balsas em piscina precisamente para que os participantes possam experimentar aquilo que no papel parece muito simples: entrar numa balsa, ajudar outra pessoa a entrar ou endireitar uma balsa que se encontra invertida.

A realidade é bastante diferente da teoria.

Participantes num exercício com balsa salva-vidas em piscina
Treino prático em piscina ministrado pelo Comandante Martins da Cruz .

E se a balsa salva-vidas insuflar invertidamente?

Pode acontecer.

Nesse caso, a balsa terá de ser endireitada.

Normalmente existe no fundo uma cinta própria para esse efeito. O náufrago coloca-se do lado adequado – a sotavento, apoia os pés na estrutura ou no dispositivo previsto pelo fabricante, segura a cinta e utiliza o peso do corpo para fazer rodar a balsa.

Sempre que possível, a manobra deve ser feita tendo em conta o vento, aproveitando-o para ajudar a levantar a balsa.

É uma operação que se compreende muito melhor depois de a experimentar.

E é precisamente por isso que defendemos que o primeiro contacto com uma balsa salva-vidas não deveria acontecer durante um naufrágio.

Endireitar uma balsa invertida Ilustração da manobra 1 Identicar uma cinta que atravesse a balsa salva-vidas Procurar um apoio e avaliar a direcção do vento 2 Executar a manobra por SOTAVENTO O peso do corpo permitirá o movimento de rotação da balsa 3 Balsa na posição de utilização

Quando cortar o cabo?

Depois de insuflada, a balsa continua inicialmente ligada à embarcação pelo cabo que utilizámos para a disparar.

Enquanto for seguro permanecer junto da embarcação, essa ligação pode ser vantajosa.

Mas se a embarcação estiver a afundar-se, a arder ou representar qualquer outro perigo, chega o momento de nos separarmos.

Para isso existe dentro da balsa uma navalha própria, de pontas redondas, normalmente com uma configuração que reduz o risco de perfurar acidentalmente os flutuadores.

Navalha da balsa salva-vidas destinada a cortar o cabo de ligação à embarcação
Navalha da balsa salva-vidas destinada a cortar o cabo de ligação à embarcação.

Corta-se o cabo e afasta-se a balsa da embarcação.

Só devemos fazê-lo quando a separação for necessária.

Agora estamos por nossa conta

Uma vez afastados do perigo imediato, começa uma nova fase.

A primeira preocupação deve ser perceber exatamente qual é a nossa situação.

  1. Contamos as pessoas.
  2. Verificamos se falta alguém.
  3. Avaliamos feridos.
  4. Recolhemos, se for possível, quem ainda estiver na água.
  5. Verificamos o equipamento que conseguimos trazer.
  6. Confirmamos a nossa posição.
  7. Tentamos perceber quais os alertas de socorro que efectivamente foram transmitidos.
  8. E organizamos a vida dentro da balsa.

O anel de recolha de náufrafgos com retenida que integra o equipamento da balsa pode ser particularmente útil para recuperar alguém que tenha ficado na água.

Ao mesmo tempo, devemos retirar ou acondicionar cuidadosamente objetos pontiagudos ou potencialmente cortantes.

Estamos dentro de uma embarcação insuflável.

Um objeto que normalmente seria inofensivo pode agora transformar-se num problema grave.

Balsa salva-vidas aberta com equipamento de sobrevivência disposto para demonstração
Balsa salva-vidas e parte do equipamento de sobrevivência existente a bordo.
Conhecer a balsa Representação dos componentes principais Cobertura Entrada Flutuadores Bolsas de lastro Sistema de embarque Pagaias Navalha Fole de enchimento Espelho heliográfico Esponjas Anel com retenida A configuração e o equipamento variam conforme o modelo e a lotação.

Tirar a água da balsa

Se entrou água, devemos começar por retirá-la.

As balsas dispõem normalmente de meios próprios para isso, incluindo um vertedouro e esponjas.

Uma das esponjas é particularmente útil para retirar aquela última quantidade de água que já não conseguimos remover de outra forma.
A outra esponja deverá ser preservada para a recolha de água doce proveniente da condensação obtida pela respiração dos náufragos.

Manter o interior tão seco quanto possível não é apenas uma questão de conforto.

Roupa molhada, água acumulada no fundo e vento aumentam a perda de calor e, consequentemente, o risco de hipotermia.

Estabelecer vigias

Uma das primeiras tarefas a organizar é a vigia.

Não podemos permitir que todas as pessoas se deitem e deixem simplesmente passar o tempo.

Um navio pode aparecer no horizonte.

Podemos ouvir uma aeronave antes de a vermos ou avistar uma luz durante a noite

E uma oportunidade de sermos encontrados pode durar apenas alguns minutos.

Daí a necessidade de existir sempre alguém responsável por observar e ouvir.

É uma função particularmente dura.

Durante o dia, o calor dentro da balsa pode tornar-se muito intenso. Durante a noite, o frio e o vento podem ser severos. Acrescentemos o cansaço, o enjoo, o medo e o desgaste psicológico.

As vigias devem, por isso, ser repartidas entre as pessoas que tenham condições para as realizar.

A âncora flutuante

A âncora flutuante, ou drogue, desempenha aqui um papel fundamental.

A sua função principal é reduzir a deriva e aumentar a estabilidade da balsa, mantendo-a numa orientação mais previsível relativamente ao vento e ao mar.

Não devemos pensar nela apenas como um sistema normal de propulsão.

Para pequenas correções de posição existem também as pagaias.

Mas uma balsa salva-vidas não foi concebida para navegar dezenas de milhas.

Foi concebida, fundamentalmente, para manter os sobreviventes vivos enquanto aguardam o salvamento.

A âncora flutuante Uma ligação que ajuda a limitar a deslocação da balsa de uma eventual posição de socorro já transmitida às autoridades. Cabo Âncora flutuante provoca uma resistência na água. Também pode ser utilizada como meio para a deslocar.

Não desperdiçar os pirotécnicos

Os pirotécnicos são recursos limitados e devem ser utilizados com critério.

Um facho de mão laranja é particularmente útil quando o meio que pretendemos alertar já está relativamente próximo.

Um foguete para-quedas permite sinalizar a nossa posição a muito maior distância e durante mais tempo.

Se ouvirmos, por exemplo, uma aeronave ou soubermos que existe um navio nas proximidades, pode ser o momento adequado para utilizar um sinal.

Não devemos, porém, gastar sucessivamente pirotécnicos apenas porque estamos em perigo.

O objetivo não é simplesmente produzir um sinal.

Água: provavelmente a nossa maior preocupação

Numa situação prolongada de sobrevivência, a água doce é uma prioridade absoluta.

Não devemos estabelecer uma regra rígida dizendo que uma pessoa sobrevive exatamente três ou cinco dias sem água. Isso depende da temperatura, exposição solar, estado físico, esforço, perdas por vómitos e de muitos outros fatores.

Mas podemos afirmar uma coisa sem hesitação:

Os rins humanos não conseguem eliminar aquela concentração de sal sem gastar ainda mais água.

Em vez de hidratar, a água salgada agrava a desidratação e pode provocar alterações neurológicas graves e, em situações extremas, a morte.

O extraordinário caso de Alain Bombard

Há, contudo, uma história que merece ser contada.

Em 1952, o médico e biólogo francês Alain Bombard decidiu transformar-se voluntariamente num náufrago.

Partiu para o Atlântico num pequeno pneumático chamado L'Hérétique e realizou uma extraordinária experiência de sobrevivência.

Depois de sair das Canárias, atravessou o Atlântico e chegou a Barbados cerca de 65 dias depois.

Bombard alimentou-se essencialmente de recursos obtidos do mar e procurou demonstrar que um náufrago poderia sobreviver muito mais tempo do que então se acreditava.

Entre as experiências que realizou encontrava-se a ingestão controlada de pequenas quantidades de água do mar.

A experiência ficou célebre e foi posteriormente relatada no seu livro Naufragé volontaire — publicado em português como Náufrago Voluntário.

Diferentes edições de Náufrago Voluntário, de Alain Bombard, da Biblioteca Náutica Martins da Cruz
Diferentes edições da publicação de Náufrago Voluntário, de Alain Bombard, da Biblioteca Náutica Martins da Cruz.

Mas é fundamental não retirar daqui a conclusão errada.

A experiência de Bombard foi extraordinária, as suas conclusões foram discutidas e não constituem uma recomendação moderna de sobrevivência.

Na Náutica Martins da Cruz a nossa posição é inequívoca:

Não sabemos controlar clinicamente o que está a acontecer no organismo, não conhecemos necessariamente a salinidade da água onde nos encontramos e, numa situação real de sobrevivência, acrescentar voluntariamente mais um risco não faz qualquer sentido.

A história de Bombard merece ser conhecida.

A experiência não deve ser repetida.

Aproveitar a chuva

Algumas balsas possuem sistemas que permitem encaminhar a água da chuva que escorre pela cobertura para o interior, onde pode ser recolhida num recipiente.

Pode tornar-se uma fonte preciosa de água doce.

Mas existe um cuidado importante.

A cobertura esteve exposta ao ambiente marinho e pode estar coberta de sal.

Quando começa a chover, devemos deixar que a primeira água lave a superfície antes de começarmos a recolhê-la para beber.

Caso contrário, podemos contaminar com sal precisamente a água doce que pretendíamos obter.

A condensação também conta

Dentro de uma balsa fechada, várias pessoas respiram continuamente.

Em determinadas condições pode formar-se condensação nas superfícies interiores.

Uma esponja limpa pode permitir recuperar pequenas quantidades dessa água.

Não estamos a falar de grandes volumes.

Mas, numa situação extrema, pequenas quantidades podem contar.

É importante, naturalmente, não contaminar essa água com a esponja utilizada para retirar água salgada do fundo da balsa.

E a comida?

A falta de alimentos não constitui normalmente uma ameaça tão imediata como a falta de água.

As dotações variam conforme a categoria da balsa e o equipamento ou pack com que foi fornecida.

Não devemos, portanto, partir do princípio de que todas as balsas têm comida ou água para cinco dias.

Algumas têm provisões.

Outras não.

E é precisamente aqui que entra uma opção que adotámos no FORMIDÁVEL.

O nosso grab bag

Na Náutica Martins da Cruz preferimos investir primeiro naquilo que não podemos acrescentar posteriormente:

a qualidade da própria balsa.

A qualidade dos materiais.

A construção.

Os compartimentos independentes.

O fundo.

A cobertura.

Os sistemas de estabilização.

O sistema de recolha de água.

Depois complementamos aquilo que queremos levar através de um grab bag.

O grab bag é um saco de emergência estanque colocado imediatamente junto da balsa.

No FORMIDÁVEL treinamos precisamente para que uma coisa acompanhe a outra:

Dentro dele podemos colocar aquilo que consideramos adequado à navegação que estamos a realizar.

  • Água.
  • Alimentação.
  • Primeiros socorros.
  • Material de pesca.
  • Pirotécnicos adicionais.
  • Ajudas térmicas de boa qualidade.
  • GPS portátil e pilhas.
  • VHF portátil de emergência.
  • Telefone por satélite.
  • Meios independentes para o carregar.
  • Espelho heliográfico.
  • Bloco e lápis.

E até pequenos objetos que a experiência nos ensinou a valorizar.

Por exemplo, uma lupa.

Parece insignificante.

Mas quem necessite de óculos e os tenha perdido durante o abandono pode descobrir que deixou de conseguir ler instruções, medicamentos ou indicações importantes.

Material de emergência do grab bag disposto para demonstração
Material de emergência do grab bag do FORMIDÁVEL.

EPIRB: dizer ao mundo onde estamos

Entre os equipamentos mais importantes encontra-se a EPIRB — Emergency Position-Indicating Radio Beacon.

É uma radiobaliza de emergência que transmite um alerta através do sistema internacional Cospas-Sarsat.

O seu objetivo fundamental é permitir que as autoridades de busca e salvamento saibam que existe uma emergência e possam determinar onde procurar.

Uma EPIRB moderna pode transmitir também informação de posição obtida por satélite.

É um equipamento extraordinariamente importante.

Mas não é, essencialmente, um meio para conversar.

Para isso precisamos de outros equipamentos.

VHF de emergência

Um VHF portátil de emergência permite estabelecer comunicações a curta distância com navios, embarcações de salvamento ou aeronaves que se encontrem na área.

Quando os meios SAR se aproximam, poder falar diretamente com eles pode ser extremamente importante.

Podemos explicar quantas pessoas somos.

Se existem feridos.

Como está o mar.

O que conseguimos observar.

E receber instruções para o salvamento.

Podemos resumir a diferença desta forma:

E o telefone por satélite?

No FORMIDÁVEL transportamos igualmente um telefone por satélite e meios independentes para assegurar a respetiva alimentação.

Não substitui a EPIRB.

São equipamentos diferentes.

Mas a possibilidade de estabelecer uma comunicação bidirecional a grande distância, transmitir informação sobre o estado das pessoas e receber indicações constitui, na nossa opinião, uma enorme vantagem numa navegação oceânica.

Em segurança marítima, a redundância bem pensada não é desperdício.

É proteção contra a falha de um único sistema.

O frio continua a ser um inimigo

Entrar seco na balsa não significa que o problema da hipotermia desapareceu.

Durante horas ou dias, o fundo frio, roupa molhada, vento, baixa temperatura e imobilidade podem provocar uma perda progressiva de calor.

As ajudas térmicas são, por isso, importantes.

Na Náutica Martins da Cruz optámos também por colocar no grab bag ajudas térmicas de qualidade superior, semelhantes a pequenos sacos-cama e acondicionadas em vácuo para ocuparem muito pouco espaço.

É um daqueles equipamentos que esperamos nunca utilizar.

Mas, se for necessário, queremos que funcione.

O enjoo também é um problema de sobrevivência

Dentro de uma balsa, o movimento pode ser extremamente desconfortável.

O enjoo não representa apenas sofrimento.

Vómitos significam perda de líquidos.

E perder líquidos quando temos uma quantidade limitada de água doce é um problema sério.

Além disso, uma pessoa continuamente enjoada perde capacidade de participar nas vigias, ajudar os outros e tomar decisões.

Quando o equipamento da balsa inclui medicação contra o enjoo, esta não deve ser considerada um simples elemento de conforto.

Pode fazer parte da estratégia de sobrevivência.

E depois existe a cabeça

A componente psicológica não deve ser subestimada.

Medo.

Cansaço.

Enjoo.

Sede.

Frio.

Privação de sono.

E a incerteza de não sabermos quando vamos ser encontrados.

Tudo isto reduz progressivamente a capacidade de tomar decisões, tornando ainda mais importante uma boa organização.

  • Estabelecer vigias.
  • Distribuir tarefas.
  • Controlar a água.
  • Verificar os equipamentos.
  • Acompanhar o estado das pessoas.
  • Registar posições e acontecimentos.
  • Manter a balsa tão seca quanto possível.
  • E manter todos envolvidos.

Há quem defenda inclusivamente levar um baralho de cartas impermeável.

Pode parecer um pormenor.

Talvez não seja.

Numa espera prolongada, manter atividade mental, alguma rotina e a coesão do grupo também faz parte da sobrevivência.

Uma balsa não se aprende a utilizar durante um naufrágio

Talvez esta seja a ideia mais importante destes dois artigos.

Na Náutica Martins da Cruz abrimos regularmente balsas salva-vidas.

Fazemo-lo em terra.

E fazemos também exercícios em piscina.

Entramos na balsa.

Saímos.

Viramo-la.

Endireitamo-la.

Experimentamos entrar a partir da água.

Ajudamos outra pessoa a entrar.

Localizamos os equipamentos.

Percebemos o espaço disponível.

E descobrimos como tarefas aparentemente simples se tornam difíceis quando estamos molhados e dentro de água.

Tudo muda quando deixamos de olhar para uma fotografia e experimentamos realmente o equipamento.

Balsa salva-vidas e equipamentos numa sessão de Segurança a Bordo
Demonstração de balsa salva-vidas e equipamentos numa sessão de Segurança a Bordo ministrada pela Náutica Martins da Cruz.

É por isso que realizamos também uma palestra de segurança na qual fazemos a abertura de uma balsa salva-vidas.

E é por isso que os nossos navegadores sabem que podem colocar-nos dúvidas.

Porque uma balsa salva-vidas é um equipamento que esperamos nunca utilizar.

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